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sexta-feira, 7 de março de 2014

Aos poucos, a vida volta a seguir seu rumo


Esperou impacientemente apertando os braços contra o corpo, aqueles segundos pareciam horas, longas horas... O que seria de agora pra frente? Por quanto tempo ainda teria de esperar? O choro compulsivo começara e a longa espera aumentava ainda mais a dor que sentia no fundo da alma, em cada parte de seu corpo e coração. Decidiu que ele não viria.
Ela então obrigou as pernas a se movimentarem pelas ruas cobertas de neve de Nova York. Ele havia falado sério quando disse na noite anterior que não queria mais vê-la, que não importava mais aquilo que tiveram. Era passado, não mais presente ou futuro. Havia acabado.
Enfiou suas mãos nos bolsos e soltou o ar pela boca. Condenava a si mesma de ser tão fraca e deixar as lágrimas quentes escorregarem pelo seu rosto em um lugar tão público. Qualquer um que quisesse poderia vê-la e criar histórias malucas sobre o porquê de uma garota bonita e bem vestida como ela, estaria quase aos prantos.
Odiou o pensamento que tivera hoje mais cedo. Achou que poderia consertar as coisas. Conversar com calma, resolver o que fosse preciso, mas estava enganada.
Ele havia sido seu primeiro tudo, ela o havia amado de verdade de uma forma que nem ela mesma sabia que era capaz. Foi tola por acreditar no amor. Foi tola por acreditar em tudo que o havia escutado falar sobre o futuro que envolvia um nós. Estavam prestes a se casar, com um futuro totalmente planejado, quando um balde de água fria a atingiu. Da noite pro dia tudo havia mudado. Literalmente.
Ela havia acreditado em cada eu te amo que ele havia dito, havia acreditado em cada palavra, por mais boba que fosse. Só não havia creditado nas frases cruéis que ouvira noite passada. Achou aquilo impossível de ser verdade, mas agora, começava a duvidar até mesmo de seu nome. Se o que era verdade poderia ser mentira, o que era mentira também poderia ser verdade. Se sentiu confusa com os próprios pensamentos e continuou a andar.
Teve esperanças vazias durante três horas. O esperou na frente de um ótimo restaurante. Mas ele não foi. A deixou sozinha no frio.
Olhou para a sua mão esquerda e viu o anel de noivado. Seus olhos tiveram um surto de lágrimas e em um momento de raiva, tirou-o do dedo e o jogou no meio da neve se arrependendo logo em seguida. Praguejou baixinho, pois não teve coragem de voltar e procurar o anel com pequenos rubis. Decidiu que ele, como toda sua história, ficaria no passado. Impossível de se recuperar.
 Agora, avistando um parque deserto, por conta da neve que caíra durante a noite, resolveu ficar ali, talvez o frio a distraísse e a impedisse de pensar nele. Aquela pessoa que a tinha deixado sem rumo no mundo.
Imaginou como as amigas o estariam xingando por tudo que fez e deixou de fazer e como estariam brigando com ela por estar assim. Sentou-se no banco e puxou a touca mais para baixo, passou os cabelos ruivos e ondulados para frente, com a intenção de aquecer o seu pescoço que estava um pouco descoberto e suspirou. As amigas dela não estavam ali, não importava. Era apenas ela sozinha.
Como se para melhorar a situação, pequenos flocos de neve começaram a despencar do céu. A garota riu com desdém. Então aquela frase “tudo pode piorar” era realmente verdadeira. Teve até medo de pensar em qual seria a próxima coisa que poderia acontecer. Perderia seu emprego? O apartamento? Talvez alguém morresse? Balançou a cabeça e se concentrou no playground vazio a sua frente. Quem dera se ela pudesse voltar a sua época de criança, onde preocupações não existiam. Não se tinha responsabilidade.
Ela batia os dentes de tanto frio, se não fosse pelo batom vermelho, seus lábios estariam arroxeados. Sentia também seus olhos arderem. Sabia que envolta das íris verdes, ele todo estaria vermelho. Ela só esperava que pelo menos o sol aparecesse pela camada de nuvens, mesmo que por uma fresta, e mostrasse a ela por meio de um sinal que tudo ficaria bem.
Foi nesse momento que outra figura se sentou ao seu lado. Não precisava olhar para saber que era um homem. O perfume, o mesmo que seu noivo, quer dizer, ex-noivo usava o denunciou. Ela queria evitar gente, mas ela vivia no planeta Terra. Nem nos sonhos dela isso seria algo possível.
Fungou e limpou o nariz grosseiramente e tentou disfarçar toda a tristeza que transbordava por cada célula do seu corpo.
- Dia difícil também? – Ele ao seu lado perguntou. Ela não respondeu, pensou que se ficasse calada, talvez ele fosse embora.
Apertou ainda mais o casaco pelo seu pequeno corpo e fechou os olhos com força.
- É, me desculpe, não precisava perguntar para saber que você está péssima. Mas acredite, não é só você – A voz grave do rapaz ao seu lado, a deixara curiosa. O que teria acontecido com ele, afinal?
Finalmente virou a cabaça para o lado e olhou para ele. Era bonito. Tinha cabelos pretos e lisos que estavam extremamente desarrumados, sem contar a barba por fazer, mas que davam a ele um ar de badboy. Seus olhos azuis gélidos tinham olheiras profundas, como se não dormisse por dias.
- Achou que talvez o frio fosse diminuir a angústia ou a raiva? – Se ouviu dizer surpreendendo a si mesma com uma voz baixa e rouca.
- Olha, não é que a ruivinha tem voz? – Revirou os olhos percebendo a grande burrice que fez em falar com um estranho. Antes de ter qualquer outro pensamento ele voltou a falar – Talvez fosse isso, mas andar sempre faz bem para os pensamento.
- É fácil falar isso quando não te levam sempre para a mesma pessoa – Ela comentou sem nem mesmo querer. Devia se controlar melhor.
Ele a olhou atentamente e a garota se atreveu a olhá-lo de volta. Não era justo perguntar os motivos dele de estar assim, mas não poderia impedir-se de pensar sobre.
- Sabe, ruivinha, eu procuro ter em mente que tudo acontece por um motivo. Nada é em vão. – Ele estendeu a mão esperando que um floco de neve caísse em sua palma, para que depois fechá-la e desmanchá-lo. – Tempos melhores estão por vir.
- Como pode ter tanta certeza? – Se remexeu no banco e sentou por cima de sua bota preta que tinha a mesma cor da calça skini que usava.
- Não tenho, mas é preciso ter fé, não é? Se não tivermos fé no que acreditamos, nunca chegaremos a lugar nenhum. – Os olhos azuis dele se fixaram nos verdes dela.
- Se eu não estivesse tão sobrecarregada, suas palavras me fariam pensar. – Ele a olhou e depois riu. Riu de verdade, o que a surpreendeu. Seu objetivo não era fazer os outros rirem, então se sentiu confusa.
- As coisas passam, paramos de sentir. Elas desaparecem. – O rapaz voltou a ficar sério e olhar a neve que para sua surpresa, parava de cair novamente. – Pode demorar dias, meses e anos, mas elas somem. Nada é eterno, talvez só precisemos colocar isso em mente. Assim a decepção é mais sutil.
- É, talvez devêssemos. – Não queria continuar a conversa, por mais curiosa e intrigada que estivesse. Queria ficar sozinha.
Ela sentiu os minutos passarem, mas ele continuou ali. Arrumava seu casaco preto de vez em quando e esfregava as mãos para mantê-las aquecida, mas não parecia querer sair do banco.
- Então, o que fez com que você viesse para cá, ruivinha? – Ele perguntou.
- Eu queria ficar sozinha. – Respondeu direta. Talvez tivesse sido grossa, mas segundo as circunstâncias, não era nada.
- Parece que então estou te atrapalhando, mas temos algo em comum. Eu também queria ficar sozinho, mas a presença de outras pessoas é sempre reconfortante. – Chutou a neve impaciente.
Começou a pensar no que ele disse. Talvez realmente fosse. Ela não havia chorado desde que ele sentara ali. Mesmo que por vergonha, mas as lágrimas haviam cessado. De uma forma ou de outra, era algo bom.
Ela tentara ficar sozinha por um tempo, sem sucesso, por que mesmo quando estava sentada no banco sem a presença do rapaz, não era só ela. Se via perdida em lembranças do passado, em pensamentos, até mesmo prendia o olhar nas aves que vira voando pensando na liberdade que têm, na paz e esperança que a presença de uma flor, no meio de todo aquele lugar, poderia trazer.
E então percebeu, que mesmo não querendo, na vida, nunca estaríamos sozinhos. De verdade ou metaforicamente. Com um amigo ou mesmo com um pensamento, uma lembrança, mas a solidão era um sentimento, não um estado de vida. Ela não era real. Nunca seria.
Se sentiu tola e idiota por achar que se isolando do mundo ficaria bem, porque não ficaria. As pessoas eram reconfortantes, porque sentiam da mesma forma que ela. Poderiam ajudá-la. A solidão não. Esse sentimento faria com que ela enlouquecesse de tristeza, de angústia. Faria com que ela se destruísse.
Estar sozinho não é uma opção. Nunca foi.
Pensamentos idiotas, criados em momentos de raiva, fizeram com que achasse que fosse, mas descobriu por meio de um estranho que não era assim que o mundo funcionava. As pessoas iam e vinham, e o mundo continuava a rodar. Outras novas iriam aparecer. Ele estava certo, no fim da história. Ela tinha de admitir.
- Mesmo assim, minha presença talvez não seja uma boa escolha. – Sua voz continuava rouca, porém não mais tão baixa, e dessa vez, olhou-o procurando algum tipo de reação. Ele sorriu com sarcasmo.
- Não é como se eu tivesse opção. – Se sentiu confusa, e dessa vez, não pode reprimir a curiosidade.
- Como assim? – Sentiu sua testa franzir e sua cabeça se inclinar levemente para o lado.
Enquanto ela se sentia como uma criança de cinco anos que passa mais tempo tentando entender as coisas, do que brincando. Ele a olhou atentamente. O homem, apensar de mal conhecê-la, confiou nela e se sentiu sortudo por isso.
- Que tal sairmos desse congelador e tomamos um café? Por minha conta, ruivinha! – Ele a convidou e logo se pôs de pé estendendo uma mão para que ela pegasse.
- Não gosto de café. – Respondeu depressa.
- Um chocolate quente então, por mim tanto faz. – Ele sugeriu e permaneceu olhando-a.
Ela hesitou e hesitou. Quando o “não” estava prestes a sair da sua boca, uma pequena parte do céu se abriu numa fenda quase imperceptível e então um raio fraco de sol surgiu. Os olhos dela brilharam. Era o sinal que ela queria. Mais uma vez o estranho estava certo. Tudo ficaria bem, poderia demorar um período quase inimaginável, mas ela ficaria bem. De verdade, as coisas voltariam ao normal.
Aceitou a mão dele e se levantou. Ele era alto e magro. Talvez até um pouco musculoso, mas era difícil dizer com o casaco tão grande que vestia.
- Está aceitando meu convite? – Ele levantou uma sobrancelha.
- Claro, contanto que tenha um muffin também.
- É, um muffin é sempre bem vindo. – Sorriram um para o outro, mas não por educação, e sim por vontade própria. Algo que acharam que demoraria tanto tempo para acontecer de novo.
Ele ofereceu seu braço e ela aceitou.
- Vamos então, ruivinha. – Antes de darem o primeiro passo, ela se atreveu a falar:
- Ah, antes que me esqueça, você me chama de ruivinha, então como devo te chamar, estranho? – Ele a olhou, e pouco mais de três segundos depois respondeu:
- Bom, por enquanto me chame assim: estranho. Depois, faremos as devidas apresentações.
Concordaram e então seguiram rumo a uma cafeteria, logo ali na esquina. Mas dessa vez, ambos sabiam que nada estava perdido, que o mundo em que eles viviam não iria desmoronar e que a vida, no final das contas, continuaria, e que sempre achariam alguém pra partilhar suas experiências. Nos lugares mais improváveis e nas situações em que menos esperarem.
Duas coisas se tornaram claras. Nunca vai se estar sozinho e mesmo quando tudo estiver dando errado, coisas boas vão acontecer.
As coisas vão começar a melhorar no momento em que menos se achar possível. Seguir em frente é o melhor caminho a se seguir, e esquecer, talvez seja o melhor remédio para encontrar o que te faz feliz.


- Gabriela Pingituro 

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