A garota levantou o olhar, que antes estava perdido, até o céu, as estrelas e a lua. O vento soprava forte balançando as árvores e agitando o mar. As ondas eram altas, cruéis, batiam nas rochas arrancando delas o que fosse possível. Ela não conseguia se lembrar da última vez que uma tempestade tão forte havia atingido o lugar onde morava. Seu esconderijo. Sua vida perturbada.
As nuvens se afastavam mostrando o céu azul escuro e intenso, mas as nuvens que tomavam conta de seus pensamentos apenas ficavam mais densas e escuras. Tão torrenciais quanto mar. Talvez não fosse justo.
Sua vida passava em branco e preto. Momentos turbulentos, tensos e tristes, mas ela não ligava. Foram as escolhas dela que a levaram para esse caminho desconhecido. Foram as escolhas dela que a tornaram seja lá quem ela fosse hoje.
Suspirou pesadamente enquanto assistia uma estrela qualquer. Lembrou-se do brilho que seus olhos costumavam ter. Tão entusiasmantes e cheios de esperança quanto aquele astro tão distante dela. Ela havia perdido seu brilho próprio, a sua essência. Tinha perdido a pessoa boa que um dia havia sido e admirado. Perdeu a si mesma.
Na escuridão do seu quarto, tão frio quanto o ambiente de fora demonstrava ser, tentou identificar nas fotos em sua parede aqueles momentos que tanto a fizeram rir num passado não tão distante. Aqueles momentos que ela tinha orgulho e vontade de repetir de novo e mais uma vez. Não se lembrava de dias brilhantes há tempos. Ela havia adentrado em um túnel sem luz. Estava sozinha até encontrar seu caminho de volta.
Não, a garota não teria ajuda alguma.
Os dias que passavam eram sempre um desafio, uma nova luta. Ela tinha medo, claro, mas também tinha coragem. Uma coisa que nem o pior tombo a faria perder. Era orgulhosa demais para admitir, mas quanto mais a escuridão a tomava, quanto mais perdida estava, mais forças e coragem ela encontrava. Não era dela desistir tão fácil. Persistência era sua maior qualidade.
Cansada de ouvir sua respiração pesada, aquele mesmo som habitual que já se tornara insuportável, esticou o braço e deixou a música tomar o ambiente. Não ligava a hora da madrugada que devia ser, ninguém ligaria. Fechou os olhos, encostou a cabeça no vidro e deixou a melancolia consumi-la. Fugir da realidade era algo que havia se acostumado a fazer, e se tornava cada vez melhor nessa atividade.
Não sabia se tinham passado horas ou minutos, mas só tornou a abrir seus olhos quando seu celular tremelicou. Franziu as sobrancelhas. Com os dedos ágeis desbloqueou o aparelho e passou os olhos pela mensagem na tela. Algo simples, porém que fez como se tirassem sacos de areia de suas costas. Suspirou.
Não, nem tudo era culpa dela, da garota quieta e solitária. Outras pessoas contribuíram para que ela se tornasse assim. Foram suas escolhas, mas influências alheias, isso era um fato. Seja lá como tenha sido, aconteceu, e agora com tudo que lhe sobrava tentava não cometer os mesmos erros.
Mais uma manhã se iniciava, mais uma luta havia sido vencida.
Como toda tempestade termina com um arco íris, a tempestade em que vivia também acabaria com recompensas. Alguns passos eram necessários serem dados sozinhos. Ela o faria sem pestanejar. Entraria mais uma vez nesse labirinto, se perderia, e depois de vários tombos, tropeços, machucados e feridas, encontraria a saída. Encontraria a paz, a felicidade, a calmaria. Ela daria tudo de si se fosse necessário, mas não desistiria.
Desistir é para os fracos e ela era forte. Ela teria sim seu brilho, seu sorriso, seus sonhos e esperanças conquistados mais uma vez. Não deixaria a maré e os vendavais os levarem de novo. Se agarraria a eles e não os deixaria sair. Encontraria a pessoa que foi no passado, e quando isso acontecesse, iria sentir orgulho de dizer "eu consegui".
- Gabriela Pingituro